Um destes fins de semana aproveitei para fazer a minha primeira escapadinha em UK. O local escolhido foi Dover, no sudoeste da ilha. Juntamente com mais três amigos, alugámos um carro e fomos em direcção ao sul.
Apesar da própria viagem ser uma aventura, o principal desafio foi fazer a viagem pelo lado contrário da estrada. Eu sou péssima nisso e o meu pequeno cérebro entra em colapso de tão confuso, pelo que não só não conduzi, como nem me atrevi a ir de copiloto e para não dar instruções erradas. Rapidamente os meus colegas de viagem concordaram e assim fiquei-me pelos lugares de trás.
Dover é uma cidade no sudoeste da Inglaterra, no condado de Kent. É a cidade inglesa mais próxima de França e tem o maior porto do canal da mancha. Dois dias de viagem, dois pontos turísticos planeados para visitar: White Cliffs e o Castelo de Dover.
No primeiro dia (Sábado), fomos visitar os White Cliffs que tal como o nome indica são falésias brancas. A sua cor diferencial deve-se à enorme quantidade de giz (espécie de calcário) de que são compostos. São uma zona protegida, convertida em parque natural que se prolonga por 13 km com 91 metros de altura. São considerados um símbolo de grande importância para os ingleses.
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| Mapa do "parque" |
Começámos por fazer o trilho definido e admirar a beleza da paisagem. Ao longe é possível ver Calais, em França. Tivemos bastante sorte porque estava um dia solarengo, óptimo para a ocasião. Aproveitámos, claro, para tirar fotos ao prado de perder de vista e às íngremes falésias brancas como a cal. Uma paisagem mágica e inesperada. Nunca tinha visto falésias daquela cor e fiquei impressionada com tamanha beleza. Antes de nos deslocarmos até ao parque passámos pelo supermercado e comprámos mantimentos para um picnic improvisado à beira mar (apesar de ser um pouco mais acima), e com atenção para não fugir com o vento. Recomendo o passeio, porque a paisagem é mesmo fantástica.
Estas falésias são a primeira linha de defesa do Reino Unido em relação à Europa e foram prova disso na Battle of Britain durante a segunda guerra mundial. Caso não saibam, a Battle of Britain foi a batalha que se seguiu à evacuação de Durkirk. Inicialmente, após a declaração de guerra à Alemanha, França e Inglaterra juntaram-se à Bélgica e enviaram tropas para combater a Alemanha, à semelhança do que tinha acontecido na primeira guerra mundial, inclusive no mesmo local e com a mesma estratégia. Contudo, a Alemanha mudou de estratégia e graças às suas Panzers (tanques utilizados pelos Alemães) conseguiram encurralar os Aliados na pequena praia de Dunkirk (Battle of France, também conhecida como Fall of France). Após vários dias, cerca 300.000 soldados aliados de várias nacionalidades foram resgatados, mas a França rendeu-se aos Nazis. No filme Dunkirk é possível ver os White Cliffs no final, que é a primeira coisa que os soldados vêem da ilha e que os faz finalmente sentirem-se em casa.
O próximo passo para a Alemanha foi invadir a Inglaterra, mas como tal tinham que destruir primeiro a Força Aérea Inglesa (RAF - Royal Air Force e companhias de outros países como o Canadá) através de ataques massivos da sua força aérea (Luftwaffe). A batalha entre as forças aéreas de ambos os lados começou com ataques estratégicos a fábricas e locais relacionados com a RAF mas acabou por resultar em bombardeamentos em zonas civis de Londres e outras zonas do Reino Unido (The Blitz) e durou 3 meses e 3 semanas.
A batalha foi nomeada com base num discurso do primeiro-ministro inglês da altura (Winston Churchill) conhecido como "The finest hour": "What General Weygand has called The Battle of France is over. The Battle of Britain is about to begin.". Esta batalha resultou em mais um dos seus famosos discursos, com a frase “Never in the history of mankind has so much been owed by so many to so few”, referindo-se à luta da RAF na defesa do país. Outro dos seus famosos discursos, logo após Dunkirk, serviu de motivador para alimentar os soldados aliados na sua luta "We shall go on to the end. We shall fight in France, we shall fight on the seas and oceans, we shall fight with growing confidence and growing strength in the air, we shall defend our island, whatever the cost may be. We shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender". Lamento, mas não consegui resistir a copiar aqui partes dos discursos de Churchill tão marcantes nesta época.
Isto tudo para dizer que as falésias tiveram um papel importante na batalha, pois eram o primeiro ponto de contacto com o inimigo (o mesmo aconteceu durante a primeira guerra mundial). A zona contava com radares instalados (uma grande vantagem para os Aliados), assim como bunkers/túneis e canhões para ajudar na luta contra os alemães. Uma parte desses túneis (Fan Bay Deep Shelter) está disponível para visita e tivemos a oportunidade de espreitar. Tentaram manter os túneis exactamente como estava na altura em termos de estrutura, mas sem qualquer mobília ou equipamento. Estes permaneceram fechados e esquecidos durante 40 anos até que foram encontrados e após 18 meses de restauração foram finalmente abertos ao público. Junto à entrada dos túneis havia uma sirene de aviso de ataque antiaéreo à manivela que podíamos experimentar. Para fazermos a visita tivemos que utilizar um capacete com lanterna pois os túneis não têm luz eléctrica.
Após a visita aos túneis, dirigimo-nos para o ponto mais afastado que inclui um farol com um pequeno café no interior. Entrámos para um breve lanche e foi onde tive a minha primeira experiência de um verdadeiro chá à inglesa (chá com leite basicamente), que até não é mau e nojento como eu pensava. Apesar do chá ser conhecido por ser das cinco, fomos corridos do local porque ia fechar pouco depois dessa hora.
Após mais umas fotos fizemos a viagem de regresso. Encontrámos uma parte que incluía um caminho para descer a falésia, em que descemos uma pequena parte, de forma a poder ver os cliffs pelo lado "de fora".
Terminámos a admirar a vista para o porto de Dover, em que pudemos observar a euforia dos ferrys a chegar, descarregar, carregar e partir novamente. Chamou-me à atenção principalmente os banquinhos na encosta, direccionados para o porto. Confesso que há algo de terapêutico e relaxantes em sentar e apenas observar aquela vista com o porto e o mar...







